quarta-feira, 24 de agosto de 2011

QUE DIFERENÇA ABISMAL

Charneca!
Pela agreste que nos ouvidos, soa plena de aridez e de rudeza.
Lembra a secura da Planície.
A amargura insipidez de tanto quadro semelhante.


Charneca!
Charneca lembra a terra dura.


O campo ressequido ao sol ardente.
A campina a desbroar-se em ermo e solidão.


Charneca!
Lembra o silêncio perturbador do descampado.
O pavor da distância indefinida.
A monotonia da planura sem fim.


Charneca!
Lembra a natureza impregnada de mistério,
criando em nós a magia da amplidão a da quietude.


Charneca!
Lembra a vastidão do mar. A turva imensidão do mar!
Mar a que não faltam ondas,
quando a ventania corre, à deriva, pelas searas.


Charneca!
Lembra a aspereza dos cenários.
Rudes cenários, em que, fatidicamente,
mourejam tantas almas simples -
- gente que tem a vida na vida da própria terra.


Charneca!
Lembra a alma impressionante dos "montes",
habitações qgachadas, espalmadas nas Planície!
Casas pequenas, onde, à noitinha ,
se recolhem famílias que labutam,
uma vida inreira,
nos campos incomensuráveis.


Charneca!
Lembra o suplícido do arvoredo.
A dor marcada nos retorcidos troncos dos místicos sobreiros.
Solitários monges da Charneca!
Monges martirizados que parecem fitar,
de braços entrelaçados e resignados,
a curva azul do céu,
- "gritando a Deus - como diria Florbela -
a bênção de uma fonte!"


Charneca!
Lembra o olhar infinitamente nostálgico
e extático dos bois.


O olhar lânguido e mormo que eles entornam
pelas imensas várzeas ondulantes.


Charneca!
Lembra os montados. as manadas. Os rebanhos.
Lembra os pobres ganadeiros
que vêm nascer e morrer
gerações de animais
que se habituaram a estimar
HOMENS que se esquecem de tudo à sua volta,
dos dias da semana como os meses do ano,
sabendo apenas em que altura cai
o S. Miguel ou o S. Mateus,
porque o patrão lhes dará um fato novo..................


in "NOGUEIRA  -  HÁ VIDA na CHARNECA"  - 1956

Que gosta muito deste poema. Livro do Reverendo Nogueira o marcou muito.
Não sabe se as gentes deste Concelho de Gavião, este Município de Gavião, as células do seu corpo elas já pudessem ter entrado no século da luzes da Europa.
Fica com a sensação em cada dia que passa, o seu comportamento ele ainda continua a ser uma cultura agrícola e campal nos dias estes que lhe vão correndo na urbe cá do sítio. Não é uma biblioteca nele, agora, que parece que vai mudar as coisas. É um atraso de quarenta anos. Os outros já chegaram à Lua. Este PS no Gavião, agora é que parece que ainda está abrindo as portas do foguetão. Que diferença abismal. Uns lhe são filho da mãe e outros lhe são enteados. E tão mal que este comportamento fez a alguém...

Jordano`s