quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Os Silêncios.


 Os silêncios

 Um dia bateram-me à porta e anunciaram-me que o governo tinha decidido cortar-me meio subsídio de Natal. Apesar de inconstitucional, compreendi o sacrifício que o Governo me pedia.
 Noutro dia bateram à porta do meu pai e anunciaram-lhe que iam cortar meia pensão do Natal. Apesar de considerar que era um roubo, ainda admiti, porque os pais estava em estado de emergência.
 Depois bateram-me à porta e anunciaram que me iam tirar dois meses de salário e dois meses de pensão ao meu pai. Depois da estupefacção, resignação.
A 7 de Setembro, bateram-me à porta para me anunciar que tiravam 7% do salário para dar 5,75% ao patrão e ficavam com os trocos, em princípio para os cofres da Segurança Social.
 Desta vez fiquei indignado. Achei que estava a ser roubado e que estavam a transformar os patrões em receptadores do dinheiro roubado.
Em reacção, corri para a rua para protestar.
 Bateram-me mais uma vez à porta e informaram-me de que o ministro das finanças ia reescalonar as taxas de IRS, de modo a torna-lo mais progressivo.
 Imaginando que iam poupar os rendimentos mais baixos e taxar fortemente os mais altos, pensei que o Governo, finalmente, voltava ao trilho da lei. Mas para surpresa minha, voltaram a bater-me à porta para me ameaçarem com aumentos brutais no IMI. A minha indignação transformou-se em ira e juntei-me ao movimento nacional de resistentes ao pagamento do IMI.
Ainda mal refeito do choque do IMI, bateram-me novamente à porta para me mostrarem nos jornais, em grandes parangonas e cinco colunas, os novos escalões de IRS. Afinal aumentaram as taxas dos rendimentos mais baixos, menos os dos mais altos e não criaram nenhum escalão para os mais ricos.
 E a progressividade do rei dos impostos diminuiu. A minha raiva subiu de tom e  estou preparado para qualquer acção revolucionária que apareça. Ao fim e ao cabo eu o meu pai e a minha família já não temos nada a perder.

( F. V...)

 Miaskovski, poeta russo escreveu, no início do século XX :

 Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim.

 E não dizemos nada.

 Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão.

 E na oportunidade, E não dizemos nada.

 Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.

 Miaskovski (1893-1930)

Depois Bertold Brecht escreveu:

 Primeiro levaram os negros; Mas não me importei com isso.

 Eu não era negro.

 Em seguida levaram alguns operários; Mas não me importei com isso.

 Eu também não era operário.

 Depois prenderam os miseráveis; Mas não me importei com isso.

 Porque eu não sou miserável.

 Depois agarraram uns desempregados; Mas como tenho meu emprego.

 Também não me importei; Agora estão me levando.

Mas já é tarde; Como eu não me importei com ninguém.

 Ninguém se importa comigo.

 Bertold Brecht (1898-1956)

 

 Em 1933 Martin Niemöller criou o seguinte poema

 Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.

 Como não sou judeu, não me incomodei.

 No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.

Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.

 Como não sou católico, não me incomodei.

 No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar?

 Martin Niemöller, (1892-1984)? Símbolo da resistência aos nazistas.

 Em 2007 Cláudio Humberto presenteou-nos assim:

 Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima, Depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles; Depois fecharam ruas, onde não moro; Fecharam então o portão da favela, que não habito; Em seguida arrastaram até a morte uma criança, que não era meu filho?

Cláudio Humberto,  em 09 Fevereiro de 2007

Também Martin Luther King (1929.1968):

 O que mais me preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem carácter, dos sem ética?

 O que mais me preocupa é o silêncio dos bons!

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